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Saúde mental no local de trabalho: uma prioridade inadiável

Saúde mental no local de trabalho: uma prioridade inadiável

A palavra “mental”, sozinha ou precedida de “saúde” ou “doença”, ainda é um grande obstáculo para que se fale, e se cuide adequadamente, desta tão importante dimensão humana.
Mesmo sabendo que a saúde mental representa “um estado de bem-estar no qual cada pessoa consegue concretizar o seu potencial, consegue lidar com os desafios do dia-dia, consegue trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade” (OMS, 2014)”, e que “influencia a forma como PENSAMOS e nos SENTIMOS em relação a NÓS mesmos e aos OUTROS e a forma como INTERPRETAMOS acontecimentos de vida [afetando] a nossa capacidade de aprender, comunicar, criar, manter e terminar relacionamentos” (Friedli, 2004), o ESTIGMA é forte demais para dar espaço ao bom-senso e ao racional.

Há 13 anos a ENCONTRAR+SE – Associação para a Promoção da Saúde Mental foi fundada para contribuir para a promoção da saúde mental, e prevenção da doença mental em Portugal.
Desenvolveu a primeira campanha nacional de combate ao estigma e discriminação, dando inicio ao Movimento UPA – Unidos para Ajudar, cujo mote é “Levanta-te contra o Estigma e a Discriminação da Doença Mental” e, desde aí, tem implementado diversos projetos de promoção da literacia em saúde mental em diferentes contextos [para mais informação consultar www.encontrarse.pt].


Em 2014 elegeu o tema da Saúde Mental no Local de Trabalho como uma prioridade na sua atividade, uma vez que o conhecimento que já existia sobre esta temática apelava à urgência de intervir de forma responsável e construtiva.

Senão vejamos:

- Dados consensuais alertam para o facto de cerca de 25% da população vir a passar pela experiência de uma doença mental, estimando-se que 1 em cada 6 trabalhadores sofra de um diagnóstico psiquiátrico;


- O custo anual da doença mental na Europa é de cerca de 240 biliões de euros (EU-OSHA, 2014), sendo que nos 27 países da União Europeia o custo anual da depressão associada ao trabalho se situa nos 620 biliões de euros (Matrix, 2013).


- O peso da doença mental no local de trabalho assume diferentes dimensões, estando associada ao absentismo, à rotatividade dos colaboradores, à baixa produtividade, bem como ao presenteísmo (redução na produtividade sempre que os empregadores não estão totalmente envolvidos, ou têm desempenho reduzido, resultado de um problema da saúde);


- O relatório “Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho”, publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, estima que, em média, em Portugal dois em cada dez trabalhadores sofram de problemas de saúde psicológica e que faltem ao trabalho 1,3 dias por ano devido a estes problemas.

Ainda de acordo com este relatório, o impacto anual estimado dos problemas psicológicos dos profissionais das grandes empresas nacionais é de 117 milhões de euros.


Com base neste cenário, ao longo dos últimos anos, para além das múltiplas recomendações e iniciativas desenvolvidas por diferentes agências da União Europeia [Joint Action for Mental Health and Well-being ] e Internacionais [The World  Bank - Mental Health], foram sendo desenvolvidos diferentes programas para abordar este tema, tendo-se tornado evidente que as instituições que investem em programas de promoção da saúde psicológica/ mental dos seus colaboradores beneficiam em termos de produtividade, lucratividade e em ser reconhecidos como um local de trabalho de escolha (empregador preferido), resultando em níveis mais baixos de rotatividade e facilitando o recrutamento de colaboradores qualificados.

Numa revisão da literatura sobre o retorno do investimento (ROI) em iniciativas que abrangem estas temáticas foi sugerida uma variação entre 0.4:1 a 9:1. Da análise detalhada dos programas analisados, conclui-se que programas que englobam a organização como um todo e melhoram a resiliência dos funcionários, podem alcançar um retorno sobre o investimento maior do que as atividades reativas e focadas no indivíduo. (ex. https://www2.deloitte.com/content/dam/Deloitte/uk/Documents/public-sector/deloitte-uk-mental-health-employers-monitor-deloitte-oct-2017.pdf)

Alinhada às melhores práticas, e com o apoio de parceiros como a Time to Change, a Mental Health First Aid England e a City Mental Health Alliance, a ENCONTRAR+SE tem desenvolvido um conjunto de ações e implementado programas que integram diferentes níveis de intervenção, da sensibilização e combate ao estigma até à disponibilização de apoio psicológico.

As iniciativas já concretizadas em contextos públicos [Colaboradores da Câmara do Porto têm formação em Saúde Mental no Trabalho] e privados [Paula Rios: A doença mental não é um bicho-papão] têm permitido demonstrar o quanto os locais de trabalho estão necessitados destas abordagens.

A adesão que o 3º Fórum de Saúde Mental, realizado no passado dia 5 de dezembro, mereceu, tendo lotado o Auditório Carvalho Guerra do Polo da Foz da Universidade Católica Portuguesa com representantes dos mais diversos setores de atividade (educação, saúde, indústria, banca, representantes de instituições publicas e privadas, e de diferentes zonas do país), é um exemplo claro desta necessidade.
Que o conhecimento e a razão tomem a dianteira do estigma e da ignorância para a promoção de locais de trabalho promotores da saúde mental e do bem-estar dos seus colaboradores.

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